As receitas da Flá

A minha paixão por culinária é bem recente e está muito ligada ao fator família. Tudo gira à volta desse conceito – FAMÍLIA…

Uma família linda, perfeita na sua imperfeição, uma família que pretende tirar verdadeiro prazer do momento da refeição. O sentar à mesa todos juntos, a conversa animada, o debater de ideias, as gargalhadas e o desgostar de “verdadeira comida”. Comida que faz a sua função, saciar a fome, mas de vez em quando, muito de vez em quando, também gostamos de saciar a outra fome “a gula”. E assim alimentamos a barriga e a mente em plena harmonia, com moderação sem stresses e exageros.

Enquanto adolescente nunca me aventurei na cozinha, era o território da minha mãe que é uma cozinheira incrível e estava mais do que satisfeita no meu papel de provadora dos pratos dela. Depois minha irmã começou a mostrar os seus dotes e pensei “bem não vale a pena competir com estas duas ….”

Quando fui estudar para a Universidade continuei reticente em relação à culinária e basicamente vivi no primeiro ano, de comida pré feita o que resultou nuns quilinhos a mais e foi ai, que a minha relação com a comida tornou-se conflituosa… Não gostava da minha imagem e tinha que mudar. Erradamente assumi que para mudar de imagem tinha que passar fome e durante algum tempo as minhas refeições consistiram em alface, atum, esparguete, ovos mexidos, uma maça e na altura dos exames douradinhos no micro-ondas. Fiquei sem dúvida mais contente com a minha imagem, a transformação foi imediata e elogiada por todos, mas com o passar do tempo apercebi me que esse estilo de alimentação estava minando a minha saúde. Não queria voltar a ser rechonchuda mas também não queria por em causa a minha saúde e era fato consumado na minha cabeça que não tinha jeito para a cozinha, por isso investi em fruta, vegetais cozidos, sopas, ovos cozidos, omeletes, saladas quentes, saladas frias e caminhadas a pé.

E assim foi até ir viver com o agora meu marido. Ele obeso com problemas de hipertensão eu ainda em conflito com a comida, uma combinação interessante… Ele habituado a pratos elaborados, cheios, eu ainda em negação com a comida. Ele sem saber fazer nada na cozinha eu sem jeito nenhum… foi muito difícil achar um equilíbrio. Mas foi sem dúvida o melhor que nos aconteceu. Armei-me em cozinheira arranjei um ajudante e entre panelas fomos aprendendo a explorar a cozinha.

Depressa descobri que a dita comida de encher o prato, a comida de “consolo”, não era o caminho que iriamos seguir, por vários motivos, primeiro, os anos de conflito com a comida não estavam ultrapassados e ainda não me sentia completamente preparada para assumir um prato cheio com batata, arroz, pão, fritos… a cabeça começa a entrar em negação e o estômago habituado a outro regime dizia que era demais. Segundo, por mais delicioso que seja não é de todo o mais indicado para um obeso com problemas de tensão alta. Era urgente achar um meio termo que agradasse a ambos.

Após muitas tentativas e muitas pesquisas encontrei aquilo que nos satisfazia e proporcionava saúde à minha família: comidas leves, que saciassem e fossem impregnadas de sabor, dando preferência a legumes e fruta, diminuindo no sal e intensificando o sabor dos pratos com ervas aromáticas. E percebendo que a comida de consolo também faria parte da nossa alimentação mas esporadicamente e com moderação. Basicamente reaprendemos a comer e finalmente tínhamos uma alimentação equilibrada e ajustada ao gosto da família.

Quando descobrimos que da nossa soma haveria uma multiplicação a questão da alimentação equilibrada ganhou mais importância, já não era só a nossa saúde que estava em causa, era o exemplo que queríamos passar aos nossos filhos. Assumimos logo que ser bons pais também passava por ensinar os nossos filhos a comer de forma equilibrada. E o Biológico, o sermos nós a cultivar, o saber o que temos no prato passou a ter outro significado…